segunda-feira, 23 de abril de 2012


APELO



Cola em meu rosto

Aquela mão amiga

Que traz da sombra

Um sol remanescente

Recolhe da penumbra

Uma cantiga

Que faça crescer em mim

Um deus contente

Como Pan saltitando

Entre maciços

Da sua flauta

Recolhendo os vícios

De melodia ímpar e carnal

E arranca de mim este silício

De uma funesta e torpe bacanal

Bebamos à saúde da beleza

Que por vezes se esconde na certeza

De que algo em nós é imortal…

Um dia tu saberás

O que é um amor perfeito

É ter-te, onde não estás

Aqui, bem dentro do peito

terça-feira, 10 de abril de 2012

O abraço

O abraço

Subtil... ás carreirinhas
Vem chegando a madrugada
E a cidade encostada
Sobre as ruas ás tirinhas
Saiu de um conto de Grim,
São seis horas da manhã
Há Páscoa dentro de mim...

O folar ainda cabe
Na algibeira da memória
Tão bem é que já não sabe
Também ele passou à história.
(esta crueza de ver
as coisas como elas são,
está a fazer-me crer
que esgotei a ilusão)
Maaaas... de repente pode haver
Abraços no coração...
Meiga frescura esta aragem
Que vem não se sabe de onde
Um elfozinho responde
A este bulir da aragem
Saltitante e folião,
Já anda pela ramagem
A fabricar o Verão!
Ai, um pequeno prazer
Inesperado e aflito
Como faz tudo parecer
Bonito...
Mas as rédeas são de aço
E nos impõem as peias
Por mais que escorra melaço
Das palavras e das veias...
Vazio fica o espaço
Do abraço
Das ideias...

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Então Menina?
                                                                                                   Na morte de Rodrigo Botelho, meu Tio

Aguenta coração, mais esta esquina
Na caminhada informe
Não te protege o aço
Contra uma dor
Enorme,

Partiu sem um abraço
Para Deus,
Afetuoso, honrado
Deixou alguns dos seus,
Mas tem lá tantos
Já do outro lado!
(Quando é o Pai
Não há perdão para a morte,
Aquela voz solene
Aquele abraço forte
Era um leme
Que nos virava ao Norte...)
São ramos secos
Que se vão soltando
Doridos e cansados, porque amaram
E nos deixaram o dó
Que à dor maior resiste...
A morte...
Triste
É a total verdade
Pois tudo mais que existe
Não passa de saudade...

quarta-feira, 21 de março de 2012

O Sonho??

Que sonho é este
Que escorre das paredes
Do cálido agasalho
Onde cultivo a esperança
De uma vida que só tem valor
No espelho adulto da lembrança?
Noção de alma que fisica perdura
Na intuição de poeta menor
Alarme envolto em espirais de cor
Rangendo como lei em expansão
É preço alto de entrega à emoção
De ser o lado são desta aventura
Neste gélido encanto
De ter vivido tanto, tanto, tanto...
Cansada e já finita
Postos os perigos
Em balanças estranhas,
Olho para o mundo como quem transita
Nos roteiros que evita
Sem querer,
E é este viver, um não viver,
Enquanto o sonho desferindo redes
Vai escorrendo, lento, nas paredes...











segunda-feira, 12 de março de 2012

Afinal quem és tu, como te chamas, um jovem triste, um velho de pijama
Um princepe polémico, ardoroso
Que nome tens na boca quando beijas
Em que fronteira estás quando desejas?
Procuro inventar-te sem saber
Aonde ir buscar estes teus dados
És como um astro sempre a prometer
Cuidados...
Vagueias no infinito espacial
Vestindo a dura casca do animal
que existe em ti, de certo
Na guerra que semeias nos sentidos
Não existem heróis, há só vencidos
No sonho que pertende ser moderno
e tão real com um noticiário
Morres todos os dias
Mas, eleito
Ressuscitas, sorrindo, sobre o leito
Em que deixaste o teu lugar marcado
Vitima ou não, tu continuas preso
A uma especie de lenda improvisada
E eu, serena, só, imaculada
Sou como um bicho em tempo de defeso...

                                                                                                                                 11/03/20012

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Em verdade, em verdade vos digo
Que a rota se abriu
O medo ao perigo
Finalmente ruiu
Especial o treino
Do coração impera
Abriu a feira da primavera
E cheira a algodão doce
E como é bela a noite habitada
Em que se escuta
A clara guisalhada
Dos gestos sensuais
Queremos mais,
Queremos sempre mais`
É a fome ancestral
Da maçã proibida
Cansados de cansar
Nos entranhamos
Em ondas de ternura comovida
E de amavio
E abraçados ou não
Despedimos o frio...

Á noite fala baixinho
Como fazes a rezar
Nas ondas do teu carinho
Eu quero me afogar...
 

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

          A G O R A
                         V
                         E


Não querer nada
Calma e grave
Asa fechada
De ave
Repouso azul de espuma
Sem abraço
O pensamento uma
Provincia do espaço...
Abrir um ninho sobre cada olhar
E incubada de eu
Uma a uma as penas alisar
Como quem beija um filho que morreu...

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Os anos passam e fica
Nas veias a sementeira
De uma colheita tão rica
Como se fosse a primeira
Será que o estado de graça
Em que julgamos pairar
Nos perturba e nos disfarça
As nevoas do acordar?
Seremos nós tão sinceros
Que na margem do perdão
Para sermos verdadeiros
Temos de dizer que não?


segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Um dia tu saberás
O que é um amor perfeito
É ter-te, onde não estás
Aqui, bem dentro do peito


De corpo e alma

Acalme-se o povo
Que agitado grita
A festa é
Da portuguesa estreia
De quem não colhe mas semeia
O perfeito sentido do dever…
Prendas de sol
Depois da tempestade
Abrem o rol
Da felicidade.
Está no país
A força da raiz
Que enlaça a terra
Em união antiga!
E que não haja alguém mais que me diga
Que é o fim
Muda-se a vida 
Com um único sim…


sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Fabula!

Amigo, disse a pomba ao gavião
Cruzando rápido o espaço
Não estragues as minhas penas
Que são os raios de sol
Que cairam nos meus braços
- Pena é, respondeu ele
Que sejam precisas penas
para podermos voar
e libertar-nos do chão...
As tuas, deu-tas o sol
As minhas, o coração...

Dalila

Um ímpeto feroz
Me alimenta a gula
Como me vês
De uma raça obscura
Que entre os becos de mim
Se transfigura
Em perfil de cordel
Que em atoarda se fez
Ser secular e madura
Como uma esfinge de grés
A afogar em mistério
O incauto caminhante
Mais singular do que sério!
Tornar real o preço da emoção
Que encaracola a aura
(Prata-lei)
Arrebatando a carga sensual
Dos joelhos unidos, macerados
Dos contrastes gelados
Que inventei...
*********
Há fomes
Que se alimentam de si mesmas
Com palavras e esquemas
Parasitas
Por isso o ímpeto pode ser sagrado
E derrotar para sempre o mau olhado
Das pragas imprevistas...
********
Ser como a lua que respira fundo
Por saber que o luar
Não sendo seu
Não serve nunca
Para enganar
O Mundo...


quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Fado

Nada nos diz que o vento é sincero
Ou se obedece a leis que não conhece
O que às vezes parece verdadeiro
E o que Deus esquece...

Se neste inverno a neve não vier
Hei -de sentir-me um pouco mais mulher
E aquecer os lábios do meu sonho.
Só nos resta pensar
Que o que vier
Poderá ser mais nobre mais risonho
Nascendo emoldurado de atenções
Bateremos á porta das estações
Voltando a ter as lídimas colheitas
E as consciencias de mãos dadas
Feitas...
Ao ressurgir da saga imortal
A todos o sangue nos prediz
Que há um velho País
Que precisa de nós, de todos nós
E que o Fado, que agora é universal
Reuna para sempre a nossa voz!
 

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Nevoeiro!

Os garfos da noite
Enleiam
A curvatura do monte
Rasgam, rasgam
Despenteiam
A franja do horizonte
podem gemer as ovelhas
E pender as oliveiras
Ilusões nunca são velhas
São únicas e primeiras
Dá-me força... Dá-me força
Gelo que tanto vagueias
Dá-me a graça das estreias
Que a vida ás vezes, concede
: - Uma neve protetora
Que dá mais do que o que pede...
Pelos ossos da palavra
Dá-me a certeza do risco
Da missão inacabada
Em que há tantos anos fico
Sorrateira... levezinha
Estreitando a dimensão
De uma confissão só minha
Que não espera perdão
Depois de tanta crueza
Deixa-me no nevoeiro
Inconformada e presa
A um inverno inteiro...

*********

Neste cílicio fremente
que corta o destino ao meio... 

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Quando pedimos perdão
Onde fica o próprio amor
Na alforria da paixão
Ou na fronteira da dor?


Quando uma alga abraça
A espuma leve do mar
É como a chuva que passa
Para a nuvem descansar...

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

O melhor presente é dar...

Às cinco da madrugada
anda um anjo afadigado
na atmosfera parada
de um sonho nunca acabado.