sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Ponto de fuga

Virá o dia em que me hás-de perder
Dirás um palavrão
Porra... Só me faltava esta!
Será o teu modo de sofrer
Um fim de festa...

Mas, às seis horas da tarde
Sentirás uma porta que bate
Nessa tua maneira de sorrir...
Levo eu a chave
Dessa porta aberta
Na tua vida e nos teus cuidados
Entre os meus dedos frios e cerrados
Como quem guarda aquilo que lhe cabe...
E tenho pena
De partir assim
A vida foi pequena
Para mim...

A noite há-de parecer-te mais escura
Nenhuma estrela cairá madura
No teu abraço quente
E eu, em ti
Hei-de ficar segura
Finalmente...

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Poder

Porque tenho poder
Eu te proibo
A nostalgia das tardes de setembro
Porque tenho poder
Eu te proibo
A languidez das folhas do negrilho
As petalas caidas sobre a relva
Da roseira que teve mais um filho...
Porque tenho poder
Eu te proibo
A limpidez do ceu
Que como eu
Te espera calmo e puro
E porque tenho poder
Eu te esconjuro
A seres fiel aos lidimos sinais
Que não perderão mais os teus sentidos...
E porque tenho poder
Eu te proibo
A tua masculina saciedade
De te saberes amado de verdade!
Porque tenho poder
Eu te proibo
De ignorares que há acasos tais
Tão lidimos...fatais
E exclusivos
Que são
A unica razão
De estarmos vivos....

Maria Augusta Ribeiro

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Maria

Subia a rua,
Descorada e laça
Chamava-se Maria
Não tendo solução para a desgraça
Vivia...
Carregava consigo alguns volumes
E um pobre cachorrinho
Ganindo os seus queixumes
E um pequeno rádio que tocava...
A saia, um trapo velho a fazer ciúmes
Ao lixo da calçada
Uma blusa de cetim vermelho
Que já brilhara num baile de embaixada
Flores secas nos cabelos
E uns olhos que pediam para ser belos
Mirando sempre além...
Andava devagar,
Sem atropelos
Tal como quem
Indo é que vem...
Alheias, as pessoas
Nos seus trilhos
Pensando no trabalho, na casa e nos filhos
Corriam como lebres no coutado...
E nem o som do fado
As atraia...
Onde iria
Maria?
A nenhum lado!
Imagem de um destino
Perdedor
Levava dentro dela o passado
Quem sabe lá se de um imenso amor?
Um pequeno sorriso lhe franzia
A tristissima boca...
O mundo a percebia
Como Maria
A louca...

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Culpa

Estar mais perto que estar
Conluio lateral
Página seca da seiva do portal
Do expontaneo, natural, sublime...
Culpa que o tempo já não mais redime
Ardencia no olhar
Que tudo vê...
Antes, os laços
No berço ocupado
Pelo docel dos braços
Protetores
E quando o cerro
Gelado e sem flores
Sussurra de agonia
Curvam-se os dedos
Sobre o som do nada
Faz-se silêncio sobre cada estrada
Que leva à alegria...

Assim se cria e faz
O noivado da paz...

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Tu és mar

Vem me navegar
Veleiro do sul
Vem aproveitar
Um ocaso azul
A onda do seio
Se abrirá ao meio
Para te embalar
Orienta a quilha
Para a doce ilha
Que irá te acolher
Sou mar e sou espuma
Sou mais do que uma
Sereia-mulher
Sou concha soando
No teu universo
Sou onda voando
Na margem de um verso
Sou alga molhada
Sobre a tua pele
Rota perfumada
Cruzeiro de mel...
Horizonte certo
Tão perto... Tão perto...

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Medusa

Agora que a palavra
É o vetor dileto
Dos voos outonais
Em seu explendor
Há um cometa raro que está perto
Das queixas e da dor...
Não há palavra chave
Não há ferrolhos
Seca o vento
O suplicar dos olhos
Numa expressão lasciva
Tentadora
- Toda a promessa é mais que sedutora
É um chão
No Sião
Feito em rubis!
E tudo...
Tudo
O silencio ocupa e usa
Numa cabeça forte de Medusa
Que aponta em pedra
A expressão feliz...

FRAGIL

Radiante manhã
De um dia de calor
Do céu, o azul caindo
Como uma chuva de cor.
Pequeno, abandonado
Um pássaro arquejava
No relvado...
Desço aflita ao jardim
(chamaria por mim?)
Deitei-o em minha mão
Com jeito maternal
Uma bolinha de penas
Duas patinhas pequenas
Um coração a bater
Naquele ninho ocasional...
Até que enfim sossegou
Com um ligeiro tremor...
Abri um rasgo no chão
Com ternura e comoção
Cobri-o com uma flor...
Com a alma agora presa
A uma antiga certeza
Regressei então a casa...
É sempre uma tristeza
Enterrar uma asa!!!